1. O 25 de Abril
O dia 25 de Abril de 1974 "decorreu com absoluta calma em toda a Ilha de São Miguel, e bem assim em todo o Arquipélago, apenas registando-se o encerramento dos aeroportos insulares e encerramento nesta cidade de algumas instituições bancárias com sede no continente da República, a fora o natural interesse dos mais diversos sectores da população atentos às várias fontes de informação radiofónica e telegráfica nacionais e estrangeiras"[1] Correio dos Açores, 26 de Abril de 1974 .
Assim se descreve o ambiente de Ponta Delgada no "Correio dos Açores" do dia seguinte à "Eclosão no Continente de um 'Movimento das Forças Armadas'"[2] Título do Correio dos Açores, 26 de Abril de 1974 , que "acaba de cumprir com êxito a mais importante das missões cívicas dos últimos anos da nossa História" e "proclama à Nação a sua intenção de levar a cabo, até à sua completa realização, um programa de salvação do País e de restituição ao Povo português das liberdades cívicas de que vem sendo privado"[3] Proclamação do "Movimento das Forças Armadas", 25 de Abril de 1974 .
A "Revolução dos Cravos" derruba o Governo de Marcelo Caetano e entrega Portugal à Junta de Salvação Nacional[4] Constituída pelo Gerenal António de Spínola (Presidente), Capitão-de-fragata António Álvaro Rosa Coutinho, Capitão-de-mar-e-guerra José Baptista Pinheiro de Azevedo, General Francisco da Costa Gomes, Brigadeiro Jaime Silvério Marques, Coronel Carlos Galvão de Melo e General Manuel Diogo Neto , que "assume o compromisso de garantir a sobrevivência da Nação como Pátria soberana no seu todo pluri-continental"[5] Proclamação da "Junta de Salvação Nacional", 25 de Abril de 1974 .
No dia terceiro do regime democrático, o Governador Militar dos Açores, contra-almirante Décio Braga da Silva, destitui o Governador Civil do Distrito Autónomo de Ponta Delgada, Dr. António Joaquim da Fonseca, "em cumprimento de ordens emanadas da Junta de Salvação Nacional", ocupando as delegações da Direcção-Geral de Segurança e os quarteis da Legião Portuguesa nas Ilhas Adjacentes. "No decorrer da entrega da delegação da DGS em Ponta Delgada ao Exército, concentraram-se no largo fronteiro algumas centenas de pessoas que manifestaram com exuberância o seu apoio ao Movimento das Forças Armadas, com vivas e palmas à acção por estas desencadeada, tendo em determinada altura a multidão cantado em coro o hino nacional"[6] Comunicado do Quartel-General do Comando Territorial Independente dos Açores, 27 de Abril de 1974 .
No dia quinto, "procedeu-se nos três distritos do Arquipélago à extinção das comissões distritais da A.N.P., bem como à suspensão das actividades das delegações da comissão de exame-prévio (censura) e da M.P., tendo ficado as respectivas instalações entregues ao Exército"[7] Comunicado do Quartel-General do Comando Territorial Independente dos Açores, 29 de Abril de 1974 .
No primeiro "1º de Maio" de Ponta Delgada livre, "milhares e milhares de manifestantes, uns empunhando cartazes com dísticos de "Viva a Liberdade", "Vivam as Forças Armadas", "Viva Portugal Livre" e outros de igual significado, preenchiam as ruas do itinerário do cortejo[8] Campo de S. Francisco, Avenida do Infante, Largo da Matriz, Rua António José de Almeida, Rua Machado dos Santos, Rua Marquês da Praia, Rua Dr. Mont'Alverne de Sequeira e Campo de S. Francisco , em cujos passeios muitas outras pessoas assistiam ao desfile, acenando e aplaudindo os manifestantes. Hinos patrióticos e palavras de ordem eram cantados em coro, no mais indiscritível entusiasmo e vibração"[9] Correio dos Açores, 3 de Maio de 1974 .
No mesmo dia, chega a São Miguel o corpo de João Guilherme Rego Arruda, de 20 anos, estudante, natural de Santo António Além Capelas, "falecido em Lisboa quando da manifestação popular junto da sede da extinta DGS, em virtude da reacção, por agentes daquela corporação, com rajadas de armas automáticas"[10] Comunicado do Quartel General do Comando Militar dos Açores, 2 de Maio de 1974 .
É neste ambiente revolucionário que o Dr. João Bosco Mota Amaral, deputado eleito como independente na lista da ANP pelo círculo de Ponta Delgada, desde 1969, à Assembleia Nacional, entretanto dissolvida, concede a sua primeira entrevista à Emissora Nacional, na metrópole, anunciando a intenção de constituir um grupo de interesse político. E parte para São Miguel "com o intuito de começar imediatamente a trabalhar"[11] Entrevista à Emissora Nacional, em 4 de Maio de 1974, reproduzida no Correio dos Açores, de 5 de Maio de 1974 . Recebido no Aeroporto de Ponta Delgada por "muitos amigos", a 10 de Maio, "vem iniciar contactos com várias pessoas para o estabelecimento de uma delegação do Partido Popular Democrático"[12] Correio dos Açores, 11 de Maio de 1974 .
O PPD nascia em Lisboa três dias antes, a 7 de Maio, num encontro promovido por Sá Carneiro, Magalhães Mota e Pinto Balsemão, com jornalistas portugueses e estrangeiros, para "divulgarem os objectivos da sua iniciativa e as linhas gerais da actuação futura, afirmando que, ao intervirem na vida política, optaram pela formação de um Partido de orientação centro-esquerda, predominantemente social-democrático, para serem intérpretes de uma significativa corrente que neste País deseja uma democracia pluralista"[13] O Século, 9 de Maio de 1974 .



















